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A mentira banalizada e até institucionalizada

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 08.05.14

A verdade, a autenticidade, a integridade, não são muito valorizadas hoje. Ser verdadeiro consigo próprio e com os outros. A mentira está generalizada, de tal modo que é vista como uma qualidade comparável à criatividade nas relações humanas, para as tornar mais interessantes. Como se houvesse qualidade mais interessante do que a verdade, o que é genuíno e autêntico. E no entanto, a cultura actual desvaloriza essa qualidade atribuindo-a ao ingénuo, ao parvo, ao pateta, ao facilmente enganado.

 

Nesta Fogueira das Vaidades, filme que escolhi para falar destas qualidades ligadas à verdade, hoje tão desvalorizadas, vemos esse ingénuo (Tom Hanks), a sedutora e manipuladora (Melanie Grufith), o cínico oportunista (Bruce Willis, aqui também narrador), o pregador vaidoso e ganancioso, o conselheiro estratega e o político ambicioso, e nem a família da vítima atropelada escapa à espera da compensação final. Mas também vemos o amor incondicional e a lealdade do pai, e a voz da sensatez através do juiz a apelar aos valores humanos fundamentais da verdade, do respeito pelo próximo e da integridade.

 

Este filme também é uma lição sobre os jogos do poder a vários níveis e a sua indiferença perante os prejuízos e sofrimento que pode causar a pessoas concretas. É também uma lição admirável sobre a mentira, como alguns a vivem como regra essencial da relação com o mundo e os outros, e como outros defendem os seus princípios, a verdade e a lealdade, arriscando perder tudo o que define uma vida segura e confortável: o trabalho, o estatuto social, a casa.

O nosso herói (Tom Hanks) é colocado no meio desses jogos de poder que lhe são completamente alheios, dos quais não se apercebe sequer, e com os quais não foi preparado para lidar. As suas falhas humanas são próprias de quem cresceu e viveu num meio protegido. Mas o reverso da medalha é que um meio social privilegiado é muito mais exigente com os seus: uma falha que comprometa a imagem do grupo (família, círculo próximo) é logo dramatizada até à exclusão. Só o pai o apoia até ao fim: a prova da sua inocência em tribunal.

 

Já o narrador da história, o jornalista (Bruce Willis) que, apesar de ter percebido que o nosso herói é um joguete nas mãos dos vários elementos do poder, também o utiliza e à sua narrativa da desgraça, para se lançar como escritor premiado. Como ele próprio diz ao receber o prémio: perde a alma mas  há compensações. Refere-se o nosso cínico escritor à visibilidade e dinheiro, outras formas de poder.

  

Vale a pena rever o filme pelas personagens e pelos actores, mas o que fica da mensagem do filme é resumido neste discurso do juiz (precisamente Morgan Freeman) antes do veredicto final:

 

 

  

 

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publicado às 23:29


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